CONSTRUTOR, ONDE ESTÁ A PINGADEIRA DA JANELA?


Começo o texto de hoje compartilhando um momento bastante aleatório que me levou a escrever esta publicação.

Estou de férias em casa e, com o tempo chuvoso, resolvi passar parte do dia deitado, olhando pela janela enquanto chovia intensamente. Da minha cama, observava a chuva molhando a fachada do prédio vizinho. Quando a chuva cessou — e considerando que cochilei no meio da tarde —, percebi que, em determinados andares, havia manchas sob as esquadrias. O que mais chamou minha atenção foi notar que as janelas possuíam peitoris.

Vamos conhecer um pouco sobre essa peça e sua importância quando devidamente empregada, pois, sem ela, os transtornos com infiltrações são praticamente garantidos.

Importante: todas as fontes utilizadas estão no formato de hiperlink.


De acordo com a ABNT NBR 10.821-1/2017 (Esquadrias para edificações — Parte 1: Esquadrias externas e internas — Terminologia), no item 2.15.16, pingadeira é definida como uma “peça horizontal cuja superfície superior apresenta uma inclinação adequada, saindo do plano da janela, tendo por finalidade minimizar a infiltração de água através dos encontros horizontais janela/vão”.

Destaco o regionalismo da peça, que, em determinadas regiões do país, é conhecida como pingadeira, enquanto em outras é chamada de peitoril. Além disso, o nome pingadeira está associado ao sulco sob a pedra, diferentemente do que foi definido pela norma (que denomina pingadeira a peça que recebe a inclinação).

Para evitar confusões, esta publicação adotará o termo peitoril como sendo a pedra sob a esquadria e pingadeira como o sulco feito na parte inferior do peitoril.


Segundo Luciana Maciel et. al. (1998):
"O peitoril é um detalhe que protege a fachada da ação da chuva e que precisa ser devidamente projetado (...).
Recomenda-se que o peitoril avance na lateral para dentro da alvenaria, ressalte do plano da fachada, pelo menos 25mm, e apresente um canal na face inferior para o descolamento da água, que é usualmente denominado pingadeira. O caimento do peitoril deve ser de 7%, no mínimo. 
Ainda é recomendado o emprego de um peitoril pré-moldado ou de pedras naturais, com textura lisa, apresentando baixa permeabilidade à água. 
O avanço do peitoril para dentro da alvenaria, ilustrado na figura [abaixo], Caso A, evita que o fluxo de água concentre-se nas laterais do peitoril, provocando o surgimento de manchas de umidade e de sujeira na fachada, conforme ilustrado no Caso B".

Esse fluxo de água concentrado nas laterais do peitoril (e também abaixo), citado por diversos autores, está relacionado a um fenômeno chamado Efeito Coandă. Henri Marie Coandă, engenheiro aeronáutico, observou que o fluido escoa ao longo da superfície de contato, mesmo que haja uma leve alteração de direção ou ângulo. Essa adesão ocorre devido à combinação entre viscosidade e inércia, eventualmente influenciada também pelo vento. Um exemplo visual do efeito é apresentado abaixo.


A aplicação desse efeito é recorrente na aviação, onde o fluxo de ar que passa pelas asas tende a “colar” à superfície curva.


Agora que você conhece o Efeito Coandă, vamos falar sobre a pingadeira!

A engenheira Luciana Oliveira, em sua dissertação sobre painéis pré-fabricados para uso em fachadas de edifícios, explica que:
"As pingadeiras são detalhes construtivos que têm a função de 'quebrar' a linha d'água [Efeito Coandã], evitando que esta escorra pelas fachadas, e podem fazer parte do peitoril (...). 
Se não houver nenhum tipo de pingadeira ou coletor de água, as águas das chuvas podem escorrer pela superfície dos painéis, percorrendo toda a altura do edifício, depositando sujeira e manchando a superfície na direção em que a água escorre".


Apesar de não existir formalmente uma norma específica que trate das especificações do peitoril, a ABNT NBR 15.575/2021, mais conhecida como Norma de Desempenho, estabelece os requisitos mínimos de desempenho para edificações habitacionais, cujo conteúdo deve ser conhecido por todos os envolvidos, do usuário ao fabricante.
 

Outro ponto importante é verificar se o trilho da janela possui furos nas guias, permitindo que a água que escorre pelo vidro seja escoada para fora, evitando o escorrimento no lado interno da edificação. Se não houver esses furos, é recomendável providenciá-los.


Por fim, é essencial estar atento a esses pequenos detalhes, pois corrigi-los preventivamente contribui para evitar dores de cabeça no futuro. Como o usuário não é obrigado a conhecer todos os aspectos técnicos, recomenda-se a contratação de um engenheiro ou arquiteto para realizar essa inspeção — prática muito comum, especialmente em apartamentos de primeira ocupação. Identificando essas discrepâncias, a construtora deverá ser acionada para corrigi-las o mais brevemente possível.

Chegamos ao fim de mais uma publicação. Espero que o artigo de hoje tenha sido bastante útil. Agora sim, você já pode se considerar um exímio conhecedor do peitoril e da pingadeira. Até mais!

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